"Nós somos médicos e enfermeiras
de Massachusetts, vindos de todo o
espectro de nossas profissões. Nós
cuidamos de pacientes ricos e
pobres, em hospitais ambulatórios, consultórios
particulares e HMOs,
serviços públicos e universidades.
Nuvens sombrias escurecem a nossa
vocação e ameaçam transformar
os nossos vínculos terapêuticos em
contratos comerciais. Regras comerciais estão
substituindo os ditames
do tratamento violentando os mais sagrados valores
de nossa profissão.
A medicina de mercado considera os pacientes
como centros de lucro. O
tempo que nos é permitido atender o doente
encolhe sob a pressão da
necessidade de aumentar a produtividade como
se estivéssemos lidando
mais com um produto industrial do que com um
ser humano que precisa
de compaixão e cuidados. O direito de
escolher e de mudar de médicos
(enfermeiras), a base sólida da autonomia
do paciente e um ponto central
da medicina norte-americana está sendo
rapidamente destruído.
Médicos e enfermeiras estão sendo
ameaçados e subornados com
propinas para abandonarem as suas alianças
com os pacientes e
deixarem de cuidar dos mais doentes por não
serem lucrativos. Muitos de
nós, arriscamos ser despedidos ou descredenciados
se oferecemos ou
mesmo consideramos tratamentos mais onerosos,
e recebemos ofertas
de bônus para comprometer o nosso atendimento.
Ouvir, aprender e
cuidar são substituídos por negociar,
gerenciar e fazer marketing. A
importância central do paciente é
substituída por uma contabilidade
perversa de investidores, burocratas, seguradoras
e empregadores. Os
pacientes temem que as decisões dos seus
médicos e enfermeiras serão
determinadas por esses interesses empresariais.
Recursos públicos de grande valor - hospitais
sem fins lucrativos,
agências de enfermagem, até mesmo
os hospitais que atendem
pacientes terminais - construídos em dezenas
de anos com impostos,
caridade e voluntários dedicados estão
sendo invadidos por empresas
que respondem mais ao Wall Street enquanto permanecem
indiferentes
ao Main Street. As comunidades descobrem que
serviços vitais são
desativados por empresários remotos: a
economia não é direcionada para
responder às prementes necessidades clínica
mas para os lucros dos
investidores. Instituições sem
fins lucrativos, obrigadas a competir
deverão também reduzir as suas
atividades não lucrativas tais como
pesquisa, ensino e caridade ou terão de
enfrentar a bancarrota. Os lucros
das cadeias hospitalares com fins lucrativos
chegam a $100 dólares por
paciente por dia (1); o presidente de uma das
HMO (Health Management
Organization) ganhou $990 milhões de dólares
quando vendeu a sua
empresa (2); e os custos administrativos das
companhias de seguro
atingem $45 bilhões anualmente.
Ao mesmo tempo, o contingente de pessoas sem seguro
médico
continua a crescer, a rede de apoio das clínicas
e hospitais públicos
continua a encolher e os programas de saúde
publica estão sendo
desmontados. Até mesmo muitos segurados
descobrem que sua
cobertura é insuficiente quando eles dela
necessitam; tratamentos e
pagamentos são freqüentemente negados
para emergências e doenças
onerosas. Os cuidados de enfermagem especializados
são também
negados e os doentes são empurrados às
pressas para fora dos
hospitais e do consultório. Cada vez mais
o conforto do paciente, as
necessidades especiais dos idosos, dos enfermos
e incapacitados são
ignoradas quando elas conflitam com o cálculo
do lucro.
Essa mudança para a atenção
médica voltada para o lucro avança
galopantemente. Para os médicos e enfermeiros
o espaço para um bom
trabalho nesse mau sistema está sendo
cada vez mais difícil. Para o
público, na sua maioria saudável
e que não precisa de tratamentos, a
consciência dessa degradação
do sistema só irá chegar devagar; são
principalmente aqueles que estão doentes
e necessitam de tratamentos
onerosos que irão encontrar o lado sombrio
dessa saúde determinada
pelas leis do mercado.
Nós criticamos essa medicina de mercado
sem tentar esconder ou
desculpar os nossos fracassos do passado, mas
apenas para alertar que
essas mudanças que agora ocorrem estão
levando a medicina para ficar
cada vez mais distante dos bons atendimentos,
da justiça e da eficiência.
Nós podemos não concordar com as
várias possibilidades de mudanças
possíveis mas estamos unidos ao redor
dos seguintes ideais:
1. A medicina e a enfermagem não devem
ser desviadas de sua função
básica: o alivio do sofrimento, a prevenção
e
o tratamento das doenças e
a promoção da saúde. O uso
eficiente dos recursos é crítico mas não
deve obscurecer essas metas.
2. A busca do lucro empresarial e fortuna pessoal
não têm lugar na
atenção à saúde.
3. Incentivos poderosos financeiros que recompensam
o super ou o sub
atendimento e que enfraquecem a aliança
entre medico e paciente ou
enfermagem devem ser proibidos. Do mesmo modo
negociatas que
permitem às empresas e empregadores controlar
a atenção à saúde dos
empregados devem ser proibidos.
4. O direito do paciente escolher o seu medico deve ser respeitado.
5. O acesso à saúde é um direito da cidadania.
Antes que os nossos valores tão sagrados
sejam irremediavelmente
perdidos nós convidamos os membros das
profissões na área da saúde a
o publico em geral para um dialogo sobre o futuro
do nosso sistema de
saúde. O crescimento rápido dos
planos e seguros saúde com fins
lucrativos ocorreu sem o consentimento dos pacientes
ou dos clínicos,
através de um processo em grande parte
escamoteado do escrutínio
público e da participação
da cidadania. Isso deve ser substituído por um
processo aberto e amplo que não seja dominado
pelas vozes mais altas,
isto é, aquelas amplificadas pelo dinheiro
e pela influência política.
A história dos Estados Unidos está
cheia de exemplos de fortes
movimentos sociais iniciados por vozes morais
não poderosas: no século
dezoito houve a Festa do Chá em Boston,
no século dezenove o
Abolicionismo, e no século vinte os movimentos
pelos Direitos Civis e
pelo Desarmamento Nuclear. Somente um protesto
publico comparável a
esses movimentos poderá resgatar a saúde.
Nós acreditamos que as vozes de nossa profissão
irão ganhar uma
ressonância extraordinária quando
nós defendemos, não os nossos, mas
os interesses dos nossos pacientes. De Massachussetts
nós
prometemos dar os seguintes passos iniciais:
1. Enviamos uma petição para o Governador,
a Assembléia Legislativa e
o Advogado Geral do Estado pedindo uma moratória
na transformação
dos hospitais, planos de seguro, HMOs, clínicas
medicas e outras
instituições da saúde em
empresas com fins lucrativos. Nós esperamos
dos nossos governantes uma oposição
à tal transformação para não
negligenciarem o seu dever de salvaguardar os
recursos comunitários
indispensáveis. Nós apelamos para
os nossos colegas nos outros
estados a se juntar a nós nesse pedido
de moratória, até que se possam
desenvolver políticas nacionais globais
que respondam às nossas
questões.
2. Na data de publicação desse Manifesto,
médicos e enfermeiras irão se
reunir no centro histórico de Boston.
Essa manifestação pública
irá chamar a atenção do público para a
deterioração do nosso sistema de
saúde e iniciar um colóquio sobre um
futuro onde a atenção a saúde
possa ser guiada pela compreensão e a
compaixão ao invés da ganância.
Nós convidamos colegas de todos os
Estados Unidos para promoverem manifestações
semelhantes ligadas
por satélite.
3. Esses eventos irão deslanchar uma série
de reuniões de estudo e
conferências em hospitais, clínicas,
HMOs, consultórios, escolas de
medicina e de enfermagem para discutir a crise
no sistema de saúde.
Nós pedimos a cada instituição
da saúde em toda a nação para dedicar
suas conferências mais importantes a essa
crise moral que a nossa
profissão está enfrentando. Essas
conferências deverão estudar os dados
nacionais e locais e levar em consideração
a experiência de cada grupo
clínico para então avaliar o impacto
dessa invasão pelas grandes
empresas, os valores fundamentais que estão
correndo risco, os
elementos de reforma necessários para
que as necessidades dos
pacientes e das comunidades sejam atendidas e
as estratégias para
resistir e reverter o avanço dos sistemas
de saúde com fins lucrativos.
Tais discussões devem reconhecer as realidades
dos custos tanto
quanto dos atendimentos. Nosso grupo está
preparado para ajudar na
preparação dessas conferências
através de oferecer dados confiáveis,
slides e outros materiais.
4. Nós pedimos o apoio do publico, dos
nossos colegas e organizações
de médicos, enfermagem e leigos a esse
Manifesto. A classe de 1997 da
Escola de Medicina de Harvard, numa votação
na reunião ocorrida no
Interhship Matching Day foi o primeiro grupo
a oferecer seu apoio formal.
Nossa meta não é apoiar esse ou
aquele modelo de sistema de saúde.
Nós realmente acreditamos que existem
varias possíveis soluções
programáticas que poderão levar
a uma atenção a saúde universal e justa
que a nossa nação merece.
Nós queremos um dialogo amplo que dê
aos nossos pacientes e ao
público em geral o poder de formular uma
visão genuína de acordo com
as raízes comunitárias e tradições
samaritanas da medicina e da
enfermagem norte-americana."
Tradução: Márcio
V. Pinheiro, médico brasileiro, residente
nos Estados Unidos
Referências:
1. Columbia HCA Healthcare Corporation. 10Q Report
filed with the
Securities and Exchange Commission. November
19, 1995.
2. Managed Healthcare Market Report. June 30, 1996; 4(12):1.
3. Levit KR, Lazenby HC, Sivarajan L. Health care
spending in 1994.
HealthAffairs 1996; 15(2):130- 44.
Participaram da elaboração deste manifesto:
Joan Agreelis, R.N., Jerry Awrn, M.D., Charles
M. Blatt, M.D., Susanna
E. Bedell, M.D., Sasan E. Bennett, M.D., David
H. Bor, M.D., Emile Frei
III, M.D., Ernesto Gonzalez, M.D., Suzanne Gordon,
Thomas Graboys,
M.D., Charles Hatem, M.D., David U. Himmelstein,
M.D., Timothy H.
Holtz, M.D., Barry S. Levy, M.D., Bernard Lown,
M.D., Robert J. Master,
M.D., Timothy B. McCall, M.D., Mitchell T. Rabkin,
M.D., Jeffrey Scavron,
M.D., John D. Stoeckle, MD., Lee Swislow, RN.,
John Walsh, M.D.,Teffie
Woolhandler, M.D.
Nota: A divulgação deste manifesto
no Jornal da Associação Médica
Americana há um ano atrás, marcou
o início de uma ampla campanha
contra a degradação do atendimento
médico motivada pela "medicina de
mercado" praticada pelos planos de saúde
norte-americanos.
Publicado no Jornal a HORA DO POVO (São Paulo) em 2/12/98.