HMOs com fins lucrativos estão invadindo a América Latina com a ajuda do Banco Mundial.

Aetna, CIGNA estão expandindo para o sul, informa um estudo publicado no New England Journal of Medicine.

Algumas das maiores companhias de managed care dos Estados Unidos começaram a olhar na direção sul em busca de maiores lucros, de acordo com um estudo no último número do New England Journal of Medicine. Infelizmente, dizem os autores, elas estão levando os seus problemas com elas -- como "a colheita cerejas", isso é, cuidar dos paciente saudáveis, aumentar a burocracia e reduzir o acesso à saúde para os pacientes vulneráveis.

Contrastando com os Estados Unidos, a maioria dos países latino-americanos tem um sistema de seguro social que inclui o atendimento à saúde. Eles também têm hospitais e clínicas públicas gratuitas, e, mesmo gastando muito menos com o atendimento à saúde per capita do que os Estados Unidos têm conseguido bons resultados tais como uma melhoria no índice de mortalidade infantil e de longevidade.

"Dois fatores estão levando a esse aumento do managed care na América Latina" de acordo com o Dr. Howard Waitzkin. co-autor do artigo "A exportação do Managed Care para a América Latina" e um professor de Medicina Comunitária e de Família da Universidade do Novo México.

"Primeiro, O Banco Mundial está pressionando os governos a entregarem o atendimento à saúde e o seus sistemas de seguro social de muitos bilhões de dólares para o setor privado, independentemente das conseqüências. Com uma classe média alta em expansão em busca de mais serviços e os governos forçados a fazer cortes nos gastos públicos como condição para novos empréstimos pelo Fundo Monetário Internacional, os executivos do managed care estão enxergando cifrões em dólares na sua frente".

O estudo focaliza no crescimento do managed care em quatro países: Chile, Argentina, Brasil e Equador. No Chile, HMOs com fins lucrativos que começaram sob a ditadura do General Pinochet são hoje parcialmente propriedade da Aetna. A Cigna está também envolvida no Managed Care no
Chile, tanto quanto no Brasil, Argentina e Equador.

As HMOs na região parecem estar emulando mais o lado mau do managed care do que os seus bons aspectos, diz o artigo. Na sua quase totalidade essas aventuras empresariais na América Latina são com fins lucrativos, os médicos recebem incentivos financeiros para reduzir o atendimento e existe pouca ênfase na saúde preventiva. Os co-pagamentos e a confusão burocrática dessas HMOs têm criado barreiras ao atendimento, aumentando a pressão nos hospitais e clínicas públicas. Os custos administrativos e promocionais estão aumentando, desviando assim o dinheiro para o atendimento clínico.

O Chile tem a história mais longa do managed care com fins lucrativos subsidiados com o dinheiro público e seus grandes problemas. Todos os anos cerca de 24% dos pacientes no Chile são atendidos por clínicas e hospitais públicos porque eles não conseguem arcar com os custos do seu co-pagamento.

"Como ocorre com as corporações do tabaco que exportam cigarros, as HMOs estão correndo para a América Latina agora porque a sua lucratividade está diminuindo nos Estados Unidos", disse o Dr. Waitzikin. "Nesse processo teme-se que os latinoamericanos irão perder os seus direitos constitucionais de acesso à saúde."

Para cópias do " A exportação do Managed Care para a América Latina, por Karen Stoker, Howard Waitzkin e Celia Iriart, New England Journal of Medicine April 8, 1999, telefone para Cindy Foster no telefone(505) 272-3322. (USA)

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"Médicos a Favor de um Sistema Nacional de Saúde" é uma organização que conta com mais de 8.000 médicos que apoiam um acesso universal ao atendimento à saúde. Ela foi fundada em 1987.

Dr. Howard Waitzkin é professor e diretor da Divisão de Medicina Comunitária, Departamento de Medicina Comunitária e de Família, Universidade do Novo Mexico e co-fundador dos Medicos a Favor de um Programa Nacional de Saúde.

Dr. Celia Iriart é professora de Saúde Comunitária na Universidade de Buenos Aires e professora visitante na Universidade do Novo Mexico.

Karen Stocker é estudante do Master's Program em Antropologia na Universidade do Novo Mexico.

Perguntas e respostas sobre HMOs na América Latina - Abril 1999.
Howard Waitzkin, M. D., co-autor: "A exportação do Managed Care para a América Latina", NEJM, April 8, 1999.

1. Os custos com a saúde estão aumentando na América Latina com a medicina socializada, não estão?

Os custos têm aumentado muito menos nos serviços de saúde do setor público na maioria dos países da América Latina do que nos Estados Unidos. Atualmente os Estados Unidos gastam mais de um trilhão de dólares por ano na saúde, ou seja 14% do nosso produto nacional bruto, e cerca de 25% desses gastos vão para administração e não para os serviços diretos para pacientes. Na América do Sul a maioria dos países gasta entre 6% e 10% do produto nacional bruto e 12% vão para a administração. Apesar do subdesenvolvimento econômico, os serviços de saúde da América Latina oferecem mais atendimentos a um custo menor do que nos Estados Unidos.

2. Será que os países da América Latina não necessitam das HMOs para controlar custos como fazemos nos Estados Unidos?

As evidências que as HMOs controlam os custos nos Estados Unidos permanecem
obscuras. As HMOs usualmente passam a maior parte dos seus custos para os pacientes através das exigências de co-pagamentos. Elas também repassam os seus custos para as clínicas, hospitais públicos e pronto socorros que cuidam dos pacientes que não conseguem obter os serviços através delas. As HMOs que estão penetrando no mercado da América do Sul estão tentando aumentar os seus lucros através de acessar os fundos do seguro social do setor público. Essa tendência irá reduzir os atendimentos para os pacientes vulneráveis sem que haja uma redução nos custos totais.

3. A medicina estatal é horrível. Será que as HMOs não darão às pessoas
mais escolhas nesses países?

Até agora as HMOs têm reduzido e não aumentado as escolhas nos países da América Latina. Enquanto que antes os pacientes podiam obter serviços nas clínicas e hospitais do setor público eles agora só podem usar um painel limitado de médicos contratados pelas HMOs. Os co-pagamentos cobrados pelas HMOs constituem uma grande barreira ao acesso à saúde.

4. A qualidade da atenção à saúde realmente é muito pobre na América Latina, não é?

As clinicas e hospitais públicos em alguns países da América Latina não são capazes de oferecer certos tratamentos caros e procedimentos de alta tecnologia devido ao subdesenvolvimento econômico. Contudo o atendimento de cuidados primários tem sido acessível na maioria dos países em parte porque isso é considerado um direito constitucional do cidadão. As clínicas e hospitais públicos da América Latina têm um compromisso de oferecer serviços de alta qualidade aos pacientes necessitados. Usualmente essas instituições públicas estão afiliadas às escolas de medicina onde médicos habilidosos e de boa formação são professores e tratam dos pacientes. Não existem estudos que mostram uma pior qualidade na América Latina do que nos Estados Unidos onde a qualidade do atendimento se tornou um problema nacional.

5. Não é verdade que os pacientes ricos vêm procurar cuidados médicos nos Estados Unidos?

Mesmo que alguns pacientes ricos procurem atendimento especializados nos Estados Unidos não existe evidência que os pacientes latino-americanos venham para os Estados Unidos habitualmente em busca de cuidados primários. A maioria dos países da América Latina também têm centros nacionais de encaminhamento onde os pacientes têm o direito de receber atendimento especializado.

6. Todos os médicos da América Latina querem vir para os Estados Unidos, não?

Alguns países da América Latina têm sofrido o "brain drain" quando médicos treinados nesses países imigram para os Estados Unidos para vantagens financeiras. Contudo apenas um número reduzido de médicos da América Latina se instalam permanentemente nos Estados Unidos. A maioria dos médicos da América Latina têm o compromisso de atender os pacientes nos seus próprios países. Os Estados Unidos também criaram barreiras que dificultam o trabalho desses "médicos internacionais" no país.

7. Os Estados Unidos têm o melhor sistema de saúde do mundo. Não é natural que os países latino-americanos queiram isso também?

Muito pouca gente hoje em dia acredita que os Estados Unidos tenham o melhor sistema de saúde do mundo. Nós temos 45 milhões de pessoas sem qualquer seguro e milhões que não podem usar os seus seguros por causa dos co-pagamentos e exclusões. Apesar dessas barreiras do acesso aos serviços de saúde os nossos custos são os mais altos do mundo tanto em termos absolutos quanto em termos relativos na base per-capita. Os nossos índices de mortalidade e outros índices de saúde são piores do que os do Canadá e de muitos países europeus. A maioria dos países da América Latina tem oferecido atenção à saúde no setor público como um direito da cidadania
e não considera o modelo de saúde dos Estados Unidos um modelo positivo.

8. As HMOs vão aumentar a qualidade e levar melhores tecnologias como os MRIs e CT Scans que são insuficientes na América Latina, não?

Ao invés de aumentar seus gastos de capital na América Latina, as HMOs têm obtido contratos para gerenciar os equipamentos de alta tecnologia que são propriedade dos hospitais públicos. Isso quer dizer que as HMOs podem cobrar dos pacientes os estudos diagnósticos tais como MRIs e CT Scan nas clinicas e hospitais públicos. O resultado é que os pacientes de menor poder aquisitivo não irão receber esses serviços como ocorria anteriormente.

9. Porque não permitir esse mercado com fins lucrativos na saúde? O Banco Mundial quer melhorar o acesso à saúde nos países subdesenvolvidos, não?

O Banco Mundial continua a exigir a privatização e cortes nos serviços públicos como uma condição para a renegociação das dívidas ou novos empréstimos. Essa política de "ajustamentos estruturais" tem criado os desastres que temos presenciado na Rússia, Tailândia, Malásia e muitos outros países mas mesmo assim as mesmas políticas estão sendo usadas para desmantelar os sistemas públicos de saúde na América Latina. A conversão dos serviços públicos reduz ou invés de melhorar o acesso à saúde para as pessoas de menor poder aquisitivo.

10. Será que o governo não é uma influência nociva no relacionamento médico-paciente? Será que as HMOs não serão melhor para esse relacionamento?

Nos Estados Unidos o managed care levou a uma inusitada quebra da confiança na relação médico-paciente. Essa perda da confiança tem sido a maior fonte de insatisfação entre médicos e pacientes. Na medida que as HMOs americanas com fins lucrativos passam a controlar os sistemas de saúde dos países da América Latina sob os auspícios do Banco Mundial uma quebra semelhante da confiança no relacionamento médico-paciente irá ocorrer.