NO JORNAL CARROLL COUNTY TIMES 1/10/98

MEDICO PROTESTA CONTRA O MANAGED CARE

Um psiquiatra do Condado de Carroll está viajando para o Brasil para alertar os provedores da saúde brasileiros contra a adoção do sistema de norte-americano.

Por KEVIN GRIFFIS
Times Staff Writer
Carroll County Times, October 1, 1998.
 

Um psiquiatra de Eldersburg nascido no Brasil está viajando de volta ao seu pais de origem dentro de algumas semanas para participar de duas conferências sobre o managed care na saúde. Ele não irá elogiar a experiência americana. O Dr. Marcio V. Pinheiro teme que o seu país de origem mude o seu sistema único de saúde atual, reconhecidamente deficiente, para um sistema que toma por base o modelo norte-americano de managed care. As companhias de managed care estão tentando influenciar o governo Brasileiro e a forçar a sua entrada no mercado, ele disse.

Além disso, ele acredita com convicção que chegou a hora de acabar com as organizações de managed care nos Estados Unidos e adotar um sistema semelhante ao sistema usado no Canadá - um sistema único de saúde patrocinado pelo governo - para proteger a saúde dos cidadãos americanos.

É uma posição que o coloca em dificuldades com as organizações de managed care com as quais ele trabalha e com a Associação Médica Americana.

Pinheiro começa afirmando que a atenção adequada à saúde, independende do poder aquisitivo do cidadão, é um direito - tanto quanto a liberdade de expressão ou de religião. E ele acredita que os médicos e pacientes são quem devem decidir sobre a adequação da atenção à saúde.

A propensidade das corporações de managed care para a microgerenciação dos cuidados com a saúde transformou esses cuidados  numa brincadeira de mal gosto., ele acredita.

Pinheiro, que tem o seu próprio consultório em tempo parcial e trabalha no Springfield Hospital Center em Sykesville, disse que a interferência das empresas de managed care e a preocupação com o lucro trouxe as pessoas erradas, com as motivações erradas, fazendo as decisões. Essa é uma opinião que ele irá externar vehementemente nas duas conferências no Brasil, uma das quais será na Associação Nacional dos Psiquiatras Brasileiros.

Essa é também uma opinião que o tem levado a contemplar a aposentadoria.

"A profissão que eu amava não é mais amável," disse Pinheiro. "Isso não tem nada a ver com dinheiro. Tem a ver com a minha abilidade de cuidar dos pacientes."

Pinheiro disse que a interferência constante das empresas de managed care, quando toda opinião é documentada e avaliada quanto à  "necessidade médica" é inaceitável. Ele cita um exemplo particular.

"Algumas vezes um psiquiatra lida com um paciente que ele considera um alto risco para o suicídio se não for hospitalizado," Pinheiro disse. "Você acredita nisso por causa de sua experiência prévia ou porque você detectou uma frase solta".

Mas, ele disse, se ele recomenda que o paciente seja hospitalizado, o managed care vai perguntar se o paciente explicitamente disse que quer cometer suicídio, se isso encaixa nos seus critérios e definições de necessidade médica, ele disse.

"É um escândalo," Pinheiro continua. "O sofrimento humano não pode ser medido muito bem. Não pode ser graduado em medidas computerizadas".

O problema, Pinheiro e muitos outras pessoas no ramo acreditam, é que as empresas de managed care são desenhadas para ganhar dinheiro.

"No momento que nós somos reduzidos a um produto, nossas personalidades já não significam nada," Pinheiro disse. "Na medicina, a grande percentagem da efetividade do tratamento vai depender de como (o médico) se relaciona com o paciente."

Ele não acredita contudo que a solução seja a volta para o modelo de pagamento-por-serviço-prestado que levou a uma aumento muito grande nos prêmios e custos com a saúde no anos 80s e inicio de 90s. Existiam abusos naquele sistema, Pinheiro admite.

Os números parecem lhe dar razão, disse o Dr. Thomas E. Allen, também um psiquiatra e ex-presidente da MedChi, a sociedade médica de Maryland.

Em 1981, os custos médicos estavam crescendo numa velocidade de 16 porcento ao ano. Em 1996, o número caio para 4.4 porcento.

A solução, Pinheiro disse, é usar o dinheiro dos contribuintes num sistema que ofereça um nível aceitável de cuidados médicos e psiquiátricos. O acesso ao sistema de saúde deve ser universal e conselhos regionais deveriam ser instalados para administrar os programas e assegurar que os custos ficariam sob controle.

Os pacientes teriam o direito de procurar o médico de sua preferência e os médicos iriam competir entre si pelos pacientes.

Pinheiro disse que esse modelo iria permitir que os médicos permanecessem independentes e iria regular os custos mas nele o gerenciamento dos custos não seria feito por empresas e investidores em busca do lucro.

"Existe uma grande diferença entre querer economizar dinheiro e querer ganhar dinheiro," ele disse.

Pinheiro cita um estudo que mostra que o Canadá gasta uma porcentagem menor do seu Produto Nacional Bruto do que os Estados Unidos na área da saúde.

Mas os americanos tradicionalmente são avessos a um sistema único de saúde porque isso é considerado como medicina socializada. Pinheiro está ciente desse medo.

Ele reiterou contudo que no sistema Canadense os médicos não são empregados do governo ainda que o governo controle o dinheiro no sistema.

"Não sou contra o capitalismo," disse Pinheiro. "Não acredito que precisamos de mais provas que um sistema econômico monolítico não funciona, mas devem existir controles no sistema capitalista."

A Associação Médica Americana não concorda. Ela se aliou às companhias de seguros para influenciar o governo federal quando eles tentou mudar para uma saúde de acesso universal nos inícios de 90.

Allen concorda com Pinheiro que existem grandes defeitos no sistema atual mas ele acha que a mudança para um sistema único iria apesar criar outras dificuldades.

Ele, como muitos outros médicos, favorece a Poupança Médica que permitiria aos empregadores a alocação de certa quantia em dinheiro para cada empregado poder gastar com os cuidados com a saúde. Os empregados poderiam então escolher o medico e decidir quanto gostariam de gastar. Se uma doença catastrófica ocorrer haveria um seguro com 2.000 dólares dedutiveis.

"Setenta porcento da população (dos Estados Unidos) gastam menos de 500 dólares por ano e noventa porcento gasta menos de 2.000 dólares, " Allen disse.

Os planos de Poupança Saúde então fariam bom sentido para a maioria da população através de garantir a escolha, diminuir a burocracia e os custos, ele disse.

Allen citou uma empresa em Virgínia que adotou o modelo e teve os seus gastos com os custos médicos aumentar apenas um porcento por ano enquanto que no resto do estado o aumento foi de 20 porcento.