Colocando os pacientes na frente do lucro

Um sindicato irá controlar a ganância das HMOs, diz um médico.

Glenn Flores

Como muitos na minha profissão,  eu escolhi ser médico para poder ajudar as pessoas. Eu amo a riqueza na vida de um médico: prevenir as doenças, curá-las, aliviar o sofrimento e, acima de tudo, ajudar os seres humanos, nossos irmãos, nos seus momentos de maior necessidade.

A minha visão de uma prática ideal da medicina nunca incluiu ser membro de um sindicato - até recentemente. Um sindicato de médicos pode vir a ser a única maneira de proteger os direitos dos pacientes e de assegurar um atendimento médico de qualidade para todos.

O monstro do managed care exige tal providência. A sua própria existência leva à maximização do lucro para executivos e investidores às custas dos pacientes e seus médicos. As metas ostensivas do managed care são reduzir os custos e eliminar as despesas com o desperdício. A triste realidade é que a lucratividade escandalosa do managed care põe em perigo a saúde de muitos norte-americanos, especialmente os mais necessitados, os pobres, os sem seguro, os doentes crônicos e as minorias.

Numa pesquisa recente, a maioria dos norte-americanos concorda que o managed care reduziu a qualidade do atendimento médico e diminuiu o tempo que o médico fica com o paciente. Cinqüenta  e cinco por cento afirma que estão pelo menos preocupados porque se ficarem doentes o seu plano de managed care irá se interessar mais em economizar dinheiro do que em lhes oferecer o melhor tratamento médico possível.

A lista do abusos do managed care é longa. A recusa de consultas e procedimentos médicos necessários é a pedra fundamental da estratégia de contenção de gastos que o managed care eufemisticamente chama de “Revisão na Utilização”. Incapacidades permanentes, lesões sérias e mesmo morte têm sido causadas por tais decisões que negam o atendimento.

Essas decisões revelam a agenda infeliz do “lucro acima dos pacientes” que freqüentemente caracteriza o managed care. Linda Peeno, a ex-revisora de benefícios para muitas HMOs recentemente testemunhou no Comitê do Comércio da Câmara Federal dos Deputados que negou uma operação necessária para salvar o coração de um homem. Essa negação causou a sua morte. Ela não foi punida, disse. Ao invés disso foi recompensada pelo HMO. Como ela diz: “Eu não apenas demonstrei que era capaz de corresponder ao que era esperado de mim, mas me tornei o exemplo de um ‘bom’ médico da empresa: economizei meio milhão de dólares”.

A PRIORIDADE É O DÓLAR

A maneira como o Managed Care trata os médicos também demonstra como o dólar é usualmente a prioridade. As HMOs freqüentemente exigem produtividade, tais como o atendimento de um mínimo de oito pacientes por hora (uma média de sete minutos por paciente). Os médicos que se encaixam ou superam essas exigências são recompensados com bônus e aqueles que não conformam são demitidos ou sofrem um diminuição de salários.

Para se credenciar numa HMO, os médicos podem ter de assinar cláusulas mordaça que os proíbe de dar informações aos pacientes sobre tratamentos que poderiam ser muito úteis mas que são considerados onerosos pela empresa.

“Passar o lápis vermelho nos médicos” é um processo através do qual um plano de managed care dispensa médicos e pacientes que não levam ao lucro. Por exemplo, um médico que cuida de muitos pacientes pobres  e de minorias provavelmente irá encontrar uma maior severidade e prevalência de doenças. Lidar com mais doenças significa mais tratamentos e mais hospitalizações. Uma maneira fácil de uma HMO reduzir custos é eliminar esse médico e seus pacientes do seu plano de saúde.

A frustração com o managed care levou aos esforços de sindicalização dos médicos. A Associação Médica Americana votou recentemente para a formação de um sindicato dos médicos assalariados. Cerca de 40.000 médicos ou 6 porcento dos médicos norte-americanos pertencem a sindicatos. A resposta dos planos e seguros saúde tem sido afirmar que esses sindicatos estão interessados apenas em aumentar o rendimento dos médicos e que isso irá aumentar os prêmios dos seguros.

EXECUTIVOS BEM PAGOS

A ironia é que os executivos dos managed care são algumas das pessoas mais bem pagas do mundo. Executivos de HMOs ganham em média $2 milhões de dólares por ano de acordo com o Families USA, um grupo de ativistas da saúde. Em 1997, os 25 mais bem pagos executivos nas 15 dos maiores HMOs com fins lucrativos ganharam mais de 128 milhões em compensação anual, dando uma média de 5.1 milhões para cada um.

Os 25 executivos com as maiores opções de ações em 1997 tiveram opção de ações avaliadas em $290.4 milhões, dando uma média de $12.6 milhões para cada um. Essa compensação exorbitante anual dos executivos custou aos segurados entre $1.51 e $40.30. Em contraste, permitir a eles  o direito de uma apelação independente quando tratamentos lhes são negados iria custar apenas entre 4 centavos a 84 centavos por usuário.

Todos os dia na minha clínica de pediatria no centro da cidade eu atendo crianças e pais que não têm escolha mas estarem desabrigados no meio da violência, fome e pobreza. William McGuire, o CEO da United Health Care, teve uma opção de ações avaliada em $61 milhões em 1997. Eu gostaria muito de ver McGuire sentar com algumas de minhas famílias e explicar porque é razoável ele ganhar dezenas de milhões de dólares por ano, enquanto que a elas são negados atendimentos médicos básicos, seguros e planos de saúde.

Até que tal encontro aconteça, a nossa única esperança de proteger os cidadãos da ganância e dos abusos do managed care pode ser a sindicalização dos médicos em benefício dos seus pacientes.

Gleen Flores é médico-pediatra no Boston Medical Center e um professor assistente de
pediatria e saúde pública na Escola de Medicina da Universidade de Boston. Esse artigo foi distribuído pela Knight Ridder-Tribune Information Services.

Publicado no Baltimore Sun 4/7/99.