SAÚDE: Uma crise nacional que não pode ser ignorada.

Lucinda McCray Beier

Pantagraph Bloomington. Illinois, 26/07/98
 

Esse será um outro marco na história americana. O país que inventou o café da manhã instantâneo, o jazz e a bomba atômica dentro em breve será a primeira nação do primeiro mundo a legislar uma proteção dos seus próprios cidadãos contra o seu sistema de atendimento à saúde.

Isso é o que provavelmente irá ocorrer se os nossos legisladores tiverem tempo para ler as pesquisas de opinião e de negociar um acordo entre os "direitos dos pacientes" hiperbole dos Democratas e a paranoia Republicana de temor que "o governo assuma o sistema de saúde".

Na medida que essa retórica se inflama e as frentes de batalha são delineadas, torna-se necessária uma volta às questões que transformaram o Managed Care num alvo politicamente mais popular do que as grandes empresas de cigarros.

Enquanto que as leis garantindo aos membros das HMOs o direito de escolher seus medicos, receber tratamentos de emergencia e manter seus prontuários confidenciais irão certamente ajudar a impedir as táticas leoninas de contenção de custos das organizações de Managed Care, elas serão apenas uma solucao Band-Aid para os males que acometem o sistema de saúde americano.

O problema fundamental é que a meta principal das HMOs com fins lucrativos não é oferecer cuidados médicos aos cidadãos e promover a saúde da população em geral, mas sim ganhar dinheiro. Esse objetivo é alcançado através da limitação dos atendimentos.

Ainda que haja um consenso que o controle dos gastos médicos seja necessário e possível existe uma grande falta de imaginação como isso pode ser alcançado.

Hoje em dia muita discussão sobre o Managed Care têm a ver se esse sistema é melhor do que o velho sistema do atendimento particular com pagamento por serviços prestados. Existem muitas acusações mútuas, com os defensors das HMOs sempre fazendo referência à ganância pré anos 90 dos médicos e os acusadores das HMOs fazendo a pergunta retórica se deve ser um cirurgião com título de especialista ou um contador de dinheiro quem deve decidir sobre uma operação na aorta.

Essa discussão não é construtiva. Ela não será resolvida com a legislação sobre os direitos dos consumidores.

Talvez a gente deva ampliar e melhorar o nivel do debate fazendo uma pergunta muito importante: Será que o Managed Care com fins lucrativos é a melhor maneira de oferecer e pagar pelos serviços médicos nos Estados Unidos?

Cada vez mais os consumidores e provedores estão respondendo "Não" a essa pergunta. Além disso a pesquisa indica que o Managed Care com fins lucrativos não é uma solução eficiente para os desafios dos custos, acesso e qualidade que ele prometeu resolver.

Durante os anos 1990, o número de americanos sem ou com seguro insuficiente aumentou consideravelmente. Os relatos de cuidados com a saúde de má qualidade por parte das HMOs passaram a ser rotina no midia.

O Managed Care não é uma opção para muitos - os autônomos, os residentes rurais e especialmente os enfermos.

Finalmente- e talvez mais revelador - o Managed Care tem sido incapaz de impedir o aumento nos custos com a saúde.

Com efeito, as HMOs agora estão anunciando a perda crescente dos seus lucros e existem sérias dúvidas se elas continuarão a ser lucrativas se mantiverem os custos mantidos até agora para empregadores e consumidores. Será que os seus executivos e investidores irão querer dominar o sistema de saúde se os lucros cessarem?

Então, o que pensar dessa legislação sobre os direitos dos consumidores? Ao invez de tentarmos consertar um sistema que na melhor das hipoteses é imperfeito, e na pior claramente perigoso, vamos voltar para a mesa de trabalho.

Está claro que o Managed Care é uma maneira mais radical, menos eficiente e menos humana de resolver o desafio do sistema de saúde americano do que seria o caso com um Sistema Único de Saúde.

Um Sistema Único de Saúde entraria no lugar do Medicare ( NT: um seguro saude para todos os cidadãos americanos maiores de 65 anos, administrado pelo governo federal), Medicaid ( NT: um sistema de saude para os americanos considerados pobres, isso é os que ganham menos de uma certa quantia por mês, administrado pelos governos federal e estadual), seguros saúde tradicionais e Managed Care. Ele iria reduzir a complexidade administrativa e a tranferência de custos. Mais significantemente ele iria focalizar na promoção da saúde e não do lucro.

Num Sistema Único de Saúde, uma só organização paga todas as contas da saúde.

Existem vários modelos encontrados nos sistemas de saúde que operam com sucesso em países como o Canada, a Australia e a Inglaterra; mas como sempre os demonios estão nos detalhes. Contudo é digno de atenção o fato dos residentes em países com um Sistema Único de Saúde uniformemente darem a esses sistemas as mesmas altas avaliaçoes que os americanos reservam para o Seguro Social e o Medicare nos Estados Unidos. Um Sistema Único de Saúde controla os custos, garante o acesso e apoia a qualidade do atendimento.

Porque não adotamos tal sistema nesse país?

A resposta naturalmente é que alguns interesses especiais poderosos não permitem. Um consórcio seguradoras e empresários está lançando uma campanha de $1 milhão de dólares contra a legislação dos direitos dos pacientes que hora transita no Congresso. Se esse grupo não gosta dessa legislação imaginem o que ele pensa de um Sistema Único de Saúde.

Atualmente, na medida que os consumidores e os profissionais da saúde reconhecem as limitações do Managed Care, quem se beneficia da falta de um Sistema Unico de Saude são as empresas com fins lucrativos.

Uma campanha nacional a favor de um Sistema Unico de Saúde irá encontar pela frente outra vez as velhas a cansativas retóricas anti-governo e anti-comunismo. Mas é isso que eles irão dizer, não?

Lucinda McCray Beier é diretora da Unidade de Pesquisa Social Aplicada da Universidade Estadual de Illinois.