O fracasso estratégico das HMOs

ROBERT RENO writes for Newsday.
(Des Moines Register; 05/28/99)

No final da década dos 80, os Estados Unidos embarcaram numa grande
experiência com o seu sistema de saúde - mal planejada e impulsionada pelo mercado.

Se ela teve uma paternidade, ela se deve aos empresários da nação, que
ficaram cansados de pagar custos cada vez elevados para o acesso à saúde dos seus empregados. Ela postulava que se os médicos da nação fossem
encurralados e obrigados a aceitar os planos do Managed Care e HMOs, o custo da assistência médica seria controlado e o crescimento alarmante no números das famílias sem seguro saúde seria interrompido, tudo isso com a mão forte do governo dando o seu aval. Uma atenção à saúde accessível para todos seria então uma realidade atingível sem que fosse necessário adotar o temido mas atraente modêlo Canadense. Que diferença faz se os inofensivos canadenses têm uma longevidade maior do que os americanos? O sistema deles é socialista, e não é preciso dizer, incompatível com a América.

Pois bem. Os resultados dessa experiência já estão aí. Parece tratar-se do caso de um brilhante sucesso tático que se tornou um fracasso estratégico miserável.

Ela foi bem sucedida em colocar os médicos americanos sob um sistema de controles sufocantes que os irá levar a ter inveja dos seus colegas canadenses. Cerca de 92 por cento dos médicos americanos participa do Managed Care. Os honorários médicos que vinham aumentando mais de 7% ao ano estão agora aumentando pela metade dessa cifra. E o rendimento médio dos médicos que aumentou dramaticamente nos anos 70 e 80 e pareciam apontar para $200.000 dólares por ano em 1999, diminuiram nos anos 90. A Associação Médica Americana acaba de divulgar sua pesquisa anual mostrando que o rendimento médio dos médicos diminuíu nos quatro anos anteriores a 1997, caindo para $164.000. Essa pesquisa se baseou em entrevistas telefônicas com 4.000 médicos.

Considerar essa experiência bem sucedida só é possível se você aceitar aquela burrice que acreditava que os médicos eram tudo que havia de errado no sistema de saúde americano. Que eles precisavem de MBAs (Masters of Business Administration) e Contadores para ensiná-los a praticar a medicina e a reduzir os seus rendimentos enquanto que todo o resto do país estava aumentando os seus, e que essa era a melhor maneira de torná-los mais atenciosos e cuidadosos com seus pacientes.

Nós temos evidências irrefutáveis de como essas tendências têm afetado a accessibilidade e o barateamento dos cuidados com a saúde: elas não são muito favoráveis.

Enquanto os médicos são cada vez mais espremidos, o número de americanos sem seguro saúde tem aumentado consistentemente. Eles eram 31 milhões em 1987. Eles agora são 43 milhões. Os empresários, por sua vez, estão transferindo cada vez mais os custos da saúde para seus empregados. Eles agora pagam 20% dos seus prêmios quando há 10 anos atrás pagavam 10%. Isso tem aumentado a pressão para um aumento cada vez maior de empregados que não compram seguro saúde.

Por um breve período no início dessa década, ficou parecendo que o Managed Care estava fazendo uma grande diferença na inflação dos custos com a saúde, em grande parte às custas dos médicos. Os prêmios dos seguros e planos de saúde permaneceram miraculosamente estáveis. Mas agora os prêmios estão subindo assustadoramente ameaçando superar duas, três ou mesmo quatro vezes os índices gerais da inflação.*

Esses prêmios aumentaram 6% no ano passado e espera-se que eles aumentem 9% esse ano. O segundo maior comprador de seguro saúde na nação, o Sistema Público de Aposentadoria e Pensão da Califórnia acaba de anunciar que os seus prêmios irão aumentar em média 9.7% no ano 2.000 para os seus 10 planos HMOs oferecidos. O aumento dos prêmios do seu plano da Kaiser Permanente chegará a 11.7 porcento.

A industria dos planos e seguros saúde choraminga que isso ocorre somente por causa da legislação de proteção aos pacientes promulgada em 39 Estados entre 1994 e 1998. Bem, mesmo se isso fosse verdade o que isso nos revela é que a indústria dos planos e seguros saúde com fins lucrativos, na sua busca incessante de lucros e sua enorme despesa administrativa não é capaz de oferecer um atendimento accessível em termos de custos, dentro dos padrões que 39 Estados - e a grande maioria dos eleitores - exige.

A experiência nos diz que o aumento dos prêmios irá também aumentar o número dos sem seguro e o aumento do custo para os empregados. Aquele alívio sentido às custas dos médicos, acabou. O engraçado é que aquelas asneiras dos anúncios do Harry and Louise na televisão **, patrocinados pela Associação dos Planos e Seguros Saúde da América que ajudaram a derrubar a reforma da saúde de Hillary Clinton, estavam certas em muitas coisas.

Como os seguros e planos de saúde bem alertaram, as escolhas no atendimento à saúde foram restritas. O juizo clínico do médico foi comprometido. Os pacientes e os médicos estão sendo encurralados. O número dos sem seguros aumentou. E agora os prêmios estão subindo outra vez.

As reformas propostas por Hillary Clinton não ocorreram. Mas tudo mais está acontecendo.

*  A inflação americana está em torno de 3% ao ano.

** Os anúncios Larry e Louise, caríssimos, tentavam convencer o
 povo americano que um sistema como o canadense iria limitar
 as suas escolhas e iria cercear a sua liberdade.